Sabor a jazz
Sabor a jazz melancólico
invade o serão
e o quarto,
neste quarto
de hora. Dispersão.
Sabor a jazz, diabólico,
estica os minutos,
com o grude
que ilude
os meus eternos lutos.
Sabor a jazz pré-digerido
entope-me o organismo,
e regurgito
o velho mito
de que eu já nunca cismo.
Sabor a jazz. Bem definido,
quase perfeito,
o sem alento
do ritmo lento
de que é feito.
Sabor a jazz, redundante,
na noite já sem sabor
de tão mascada.
Serve de nada,
o paladar. Dissabor.
Sabor a jazz. Esgotante,
de tão real mas inerte.
Pouca a sorte,
na meia-morte
daqui. Vazio nos oferte
o sabor a jazz. Pesada
a escala da monotonia,
cujo compasso
veste um laço:
a desolação da harmonia.
De desilusões pejada,
permita-me a vida saborear
a dor que traz
todo este jazz.
Cismo que nela me hei-de contentar.